Aqui sentada em minha mesa,
imersa em meus pensamentos
envolvida em mansa solidão literária,
rabiscando uma nova poesia,
só ouço a voz do vento
que assovia lá fora na escuridão,
querendo entrar.
Bate em minha janela e uiva
como se quisesse me falar, ou, quem sabe
algum recado de um amor antigo me passar,
ou, talvez alguém que ainda virá.
O que será que esse vento quer me contar?
Penso em abrir uma fresta e por ela espiar, mas, hesito
tenho medo que esse vento forte
entre abruptamente a me assolar
desnudando minha alma, revelando meus segredos,
coisas que não quero pra ninguém contar.
Apuro meu ouvido,
tento entender sua mensagem,
seu jeito louco de se comunicar,
minha janela está trepidando
o trinco enferrujado pelo tempo
parece que dessa vez não resistirá.
Num ato de coragem começo a abrir uma aba
levo uma pancada em plena face,
a janela foi toda por ele escancarada,
entrou atrevido jogando-me ao chão
me arrancando um grito de dor e estupefação
aturdida e indefesa,observo sua devastação.
São papéis que voam da mesa
jornais e revistas em redemoinho
quadros caindo das paredes e, meus livros,
ai, meus livros,
caindo da velha estante como cadeias de dominó
Ah, vento maldito!
Não deixarei que minha fortaleza você venha ruir,
eu preciso me erguer e te expulsar
mandar-te embora daqui
pelo seu ulular lamentoso, não mais me deixarei iludir
Trêmula e desfacetada ,
com os cabelos desgrenhados,
mal conseguindo abrir os olhos
em um esforço supremo, empurro a janela
ah! Consegui! Ele foi embora,
deixando seu rastro destrutivo
em todos os cantos da sala.
Fico paralisada por alguns momentos
não choro, não consigo chorar
passo as mãos arrumando os cabelos,
esfrego os olhos tentando limpar,
até parece que estou aliviada
como se esse furacão
deixasse-me catarseada
sentindo até vontade de rir
e cantarolar uma canção
Começo a catar meus cacos, lentamente,
tentando me reorganizar, aproveito e vou,
até, mudando algumas coisas de lugar
revejo anotações antigas
guardo o que ainda vou aproveitar
jogo no lixo o que me magoou
revivo fatos já esquecidos
aspiro o cheiro das esperanças mofadas
descubro emoções contidas nas entrelinhas
em bilhetes e cartas trocadas
de amores que no passado ficou.
Acho que era esse o recado do vento
agora entendo sua linguagem
você queria minha vida futricar,
remexer,
fazer o maior alvoroço, e assim
com seu jeito nada sutil,
me remoçar.
Celena Carneiro
domingo, 6 de dezembro de 2009
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Belíssimo...
ResponderExcluirMe remocei tb!
Parabéns!
Impressionante, fico pensando o que diria Cora, a Coralina, ao saborear um doce deste.
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