sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Rita Queria Dormir

“E, aí, ela se foi. Ó, Deus! Ela estava aqui ainda há pouco. Ainda sinto a leve pressão de sua mãozinha na minha”.

Fui eu que a conduzi, que acompanhei seus últimos passos, troquei seu vestidinho de caipira, sujo de molho de tomate do cachorro quente, coloquei-lhe a camisola, tirei seu chapéu, lavei seu rosto e suas mãozinhas meladas de doce. Será que lhe dei um beijo de boa noite? Não me lembro. Devo ter dado, é um hábito, eu sempre a beijo quando a ponho na cama e digo pra dormir com Deus.
Ó, Senhor! Como eu podia imaginar que estava colocando minha filhinha pra dormir pela última vez? Porque não me deste uma luz, um sinal, meu Deus? Ela estava tão feliz na festa junina. Brincou, pulou, dançou, por isso se cansou tanto e pediu-me para levá-la pra casa. Estava com sono a minha princesa. Ah! Como ela estava linda com aquele chapéu de fitas vermelhas!
Era uma noite festiva, aguardamos muito por esse dia, preparado com muito carinho. As bandeirinhas coloridas, os doces, a pipoca, o cachorro quente, as brincadeiras. Eu dancei quadrilha com as crianças, acho que foi por isso que me descuidei. Quando estamos felizes não conseguimos detectar os perigos que nos rodeiam. Ficamos como que dopados pela endorfina que corre pelas nossas veias, é como se estivéssemos imunes à dor.
Começou a chover, fazia frio, já era mesmo hora de subir para o apartamento, a festa foi linda, mas, estávamos todos cansados. Rita ficou deitada quietinha, parecia já em sono profundo, então desci pra buscar minha outra filha, foram poucos minutos e logo retornei.
O que encontro? As luzes acesas, a cama desfeita, onde está a minha filha? Rita sumiu.
Ó, Deus, será que ela subiu no banquinho e passou pelo buraco da rede de proteção da janela? Não pode ser, Senhor, eu não ouvi nada, nenhum grito, nenhum barulho. Quem sabe ela se agarrou em algo? Uma árvore! Uma árvore pode ter protegido minha filha. Uma vez vi uma reportagem sobre uma criança que caiu do apartamento e ficou presa em um galho que a salvou. Com minha filha também pode ter acontecido um milagre, ela deve estar salva. Mas, aqui não há árvores! Um carro! Quem sabe ela caiu em cima de um carro! Pode estar muito machucada, mas, viva! Sim! Minha filhinha pode estar viva! Deve estar com muita dor, mas, mamãe vai cuidar de você querida, a dor vai passar, vai passar...
O milagre não aconteceu. Rita estava lá, seu delicado corpinho estirado no chão sem vida. Ó, Deus! Deve ter-me chamado e eu não estava lá para protegê-la. Como agora vou sobreviver a dor de perder minha filha?
“Eu não matei minha menina, não. Pelo amor de Deus, eu não matei minha filha. Eu a amo de paixão. A minha Rita. Eu não matei minha filha, não, doutora”.
Desabafa Fátima, mãe de Rita de Cássia, uma menina de 5 anos que morreu no fim da noite do sábado (11/07/09) após cair do 5º andar de um prédio em Tomás Coelho, subúrbio do Rio de Janeiro.
São inúmeros os acidentes caseiros envolvendo crianças. Quedas, queimaduras, envenenamentos, choques elétricos, enfim, as tragédias são quase sempre fatais, deixando nos pais uma dor infinda, uma chaga que vai esvair sangue para sempre, sem jamais cicatrizar.


Celena Carneiro – Publicado no Jornal Correio de Uberlândia em 18/07/09

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