sábado, 23 de janeiro de 2010

FOMOS MAUS ALUNOS...

DIMENSTEIN, Gilberto; ALVES, Rubem.

No livro, Fomos Maus Alunos, os autores Gilberto Dimenstein e Rubem Alves, questionam vários aspectos do currículo escolar e a educação desenvolvida nas salas de aula. Essas reflexões são travadas em um diálogo muito esclarecedor e envolvente, pois, os autores narram fatos ocorridos em suas vidas de estudantes desde o ensino básico até o nível superior, fazendo críticas e denúncias, mas, também apontando ou sugerindo algumas alternativas para o bom aproveitamento e crescimento do aluno.

Rubem Alves, inicia suas observações fazendo uma referência a preguiça e a curiosidade do aluno, quando ele fala: “a preguiça pertence essencialmente as rotinas escolares porque nas escolas os alunos são obrigados a fazer o que não querem fazer e a pensar o que não querem pensar...” ( Alves,pg.8).
Com essas palavras, ele está se referindo as obrigações impostas pelos programas escolares, que não priorizam as reais necessidades do aluno, nem o incentiva a desenvolver sua criatividade. O ato de aprender se torna maçante e tedioso para o aluno.
Ele começa a relacionar o conhecimento como uma obrigação, ou, um dever que não lhe proporciona nenhum prazer. Não estimula sua curiosidade, secando assim a “fonte” natural que jorra na direção do saber.
Diante dessa rotina, que a escola impõe ao aluno, este sente-se com as mãos atadas. De um lado a escola é necessária, ele precisa aprender.
Por outro lado, o que a escola está ensinando, ele rejeita, não têm nada há ver com suas necessidades, nem se aproxima de sua realidade, mas, também ele não pode abandoná-la.
Então, o aluno vai levando de forma medíocre seu aprendizado, deixando que a “tal” preguiça escolar o consuma.
Esse estado de total falta de incitamento, o Gilberto Dimenstein descreve, de forma dramática, quando diz: “Não houve um único ano em que a escola tenha sido estimulante e fonte de realização.” E ainda na mesma página: “Ir à escola, para mim, era um processo doloroso. Não conseguia aprender.” (Dimenstein,pg.14).
Com essa visão tão pessimista alusiva à escola, ele vem denunciar sua traumática trajetória estudantil, abrindo espaço para outros questionamentos, que são as defesas que o aluno adquire para continuar freqüentando a escola.
No caso específico de nosso autor, conforme ele mesmo afirma: “Uma delas foi uma dicção péssima: as pessoas não entendiam direito o que eu falava. A outra era minha letra. Até hoje eu não entendo a minha letra.” Dimenstein,pg.14.
Esses mecanismos de defesa são muito comuns nas escolas. O aluno fica o tempo todo buscando uma saída, ou, uma forma as vezes até inconsciente de se proteger.
O sofrimento se agrava quando ele ainda sofre algum tipo de discriminação, seja racial, social, religiosa, enfim, o preconceito nas escolas daria margem, ou, material, para um vasto e infindável debate.
Talvez seja esse o principal responsável pelas mazelas estudantis.
Felizmente nem tudo está perdido. Hoje algumas escolas já estão mudando, gradativamente, as normas curriculares. O aluno já conquistou mais espaços, consegue desenvolver criativamente seu “deveres”.
A tecnologia do mundo atual, traz facilidades, as informações chegam mais rapidamente, basta um “clicar” para o aluno ter contato com o mundo. Ele certamente está fascinado com esse vasto conteúdo que a Internet oferece. Os atrativos são quase irresistíveis. As imagens, o som, poder desenvolver a autonomia saciando sua natural curiosidade, enfim, para ele esse novo universo é algo assim “mágico, um milagre...”
Mas, o professor precisa estar atento, vigilante e direcionar de forma criteriosa essas informações globalizadas que, agora entram na sala de aula via on-line.
Para o professor, também, é um novo aprendizado. Como aponta Gilberto Dimenstein “...o professor aprendiz é aquele que também está junto com o aluno, com curiosidade de saber as coisas.” (Dimenstein, pg.83).
A idéia de que o professor detinha o saber está ultrapassada. O educador hoje já interage melhor com o aluno, aceita a troca de conhecimentos, mesmo porque o aluno possui mais tempo e curiosidade para buscar essas informações.
Alguns professores, desestimulados pelo processo imposto pelo currículo escolar, perderam um pouco, durante a travessia de suas atividades pedagógicas, essa curiosidade.
Rubem Alves observou muito bem essa frustração, quando disse: “O professor também é vítima. O professor é uma vítima...”( Alves,pg.66).
Então, para conseguir lidar com esses novos eventos tecnológicos, o professor precisa redescobrir a curiosidade e a paixão, evitando assim o distanciamento do aluno, preservando o convívio humano professor/aluno. Essa relação afetiva a tecnologia não pode substituir, é indispensável no aprendizado.
A aproximação da família é fundamental. A família precisa “entrar” na escola, “sentar-se” na carteira com o aluno. Precisa participar ativamente, dinâmica e amorosamente, de todos os processos educativos, que seu filho(a) ou ente querido está vivendo. Essa inclusão da família colocará o aluno mais próximo de sua realidade.
A participação e o apoio da família nas escolas dará ao aluno segurança emocional em sua jornada estudantil, fortalecendo sua travessia, ajudando-o a galgar esses misteriosos, mas, maravilhosos degraus da descoberta e do conhecimento.

Um comentário:

  1. RESUMIDAS IMPRESSÕES: Fomos Maus Alunos, Gilberto Dimenstein e Rubem Alves

    Por Fernanda Matos


    A primeira vez que li este livro foi em 2004, e nas conversas anotadas nele, percebo reflexões interessantes que fiz enquanto lia, lembranças do meu tempo de escola, vozes que não tive enquanto aluna. Hoje, 2011, marco novas palavras, agora como mãe de aluno. E como a maternidade me aproximou de mim mesma, as emoções que o livro me causa resultam num rebuliço estomacal enorme, porque me sinto impotente. Tento, então, integrar minhas impressões de criança, adulta e mãe, e buscar novas pequenas ações para mim e meu filho.


    A começar, fui o que muitos diriam, uma excelente e obediente aluna: tudo que me mandavam eu fazia, sem muitos questionamentos exteriorizados, aprendia o conteúdo, tirava notas boas e era da turma das certinhas da frente. Matemática era ótimo, artes também (até me dizerem que o que eu produzia não era artes), música não era comigo, não daquele jeito, mas não reclamei. Gostava de gramática, mas detestava literatura, só agora sei o porquê... Burlei muito, lia o início, o meio aleatoriamente e o fim dos livros e talvez pela facilidade de escrever resumos, acabava me dando bem. Redação, disseram-me que eu tinha uma escrita vazia, e essa maldição ainda me perturba. Idiomas, na escrita fazia direito, na fala, a timidez somada ao medo de errar e ser sacaneada me freavam. História e geografia, essas foram impressionantes, eu decorava, eu colava, mas até hoje só sei das capitais que conheci pessoalmente ao viajar... Religião, eu gostava do professor que me deu uma paleta de violão, Deusdete querido, nunca esquecerei de você, mas do que você ensinou não só esqueci, como nem me interessa, e não sei se você percebeu isso.


    Diferentemente (ufa...), o meu filho não é o que chamariam de bom aluno, mas também ainda não chegou ao mau aluno, e espero que não receba nenhum destes rótulos. Ele tem facilidade de reter informação, até como eu, se for emergencial, para resolução de um trabalho/prova imediata. Tem ainda pulsando em suas veias, a curiosidade do mundo. E tem um vozeirão, grita e briga muito para ser escutado, muitas vezes em vão, infelizmente, eu sei. Agora em 2011, numa nova escola, o professor lhe perguntou sobre a expectativa para o ano, ele respondeu, que deseja compreensão. Não sei se o professor compreendeu que não é a compreensão do meu filho para com as disciplinas ou a hierarquia/escola, simplesmente o que ele deseja é que ele seja compreendido! No que eu puder ajudar farei, tenho feito, mas sinto, ainda, atadas as minhas mãos marcadas do gesso que me prendeu anos a fio.


    Fomos maus alunos diz, numa conversa entre os autores, sobre estas coisas da educação. Escola nenhuma presta, não mesmo! O professor, mal sabe quem ele é, quais os seus internos sentimentos e paixões, e tem que cumprir uma carga horária e um programa educacional (ambos fixados por deduções do passado concebidas numa idéia errônea de aprendizado), que mesmo com a melhor das intenções e preparo o impedirá de conhecer aluno por aluno. Uma vez não conhecendo o que motiva verdadeiramente seus alunos, e sabendo que não está motivando, tentará buscar dinâmicas motivadoras do grupo, e até alcançará alguns pontos no propósito estimulador, mas temporariamente, porque não será real. Real, de dentro do coração do aluno. Porque motivar não é animar de fora para dentro. Motivar é descobrir os motivos internos que nos animam. É se apaixonar! Descobrir o que é prazeroso! Assim Gilberto e Rubem reclamam por uma educação ....
    http://psicoterapiaepoesia.blogspot.com/2011/02/resumidas-impressoes-fomos-maus-alunos.html

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