quinta-feira, 18 de março de 2010

UM POUCO DE FILOSOFIA...

Estudos de Filosofia (do livro: Filosofando - Introdução à Filosofia)
Maria Lúcia de Arruda Aranha
Maria Helena Pires Martins

Faça distinção entre instinto e inteligência.

A ação instintiva é regida por leis biológicas,
idênticas nas espécies e invariáveis de indivíduo para indivíduo.
Essa rigidez dá a ilusão da perfeição quando o animal,
especializado em determinados atos, os executa com estrema habilidade.
Não há quem não tenha ainda observado com atenção
e pasma o “trabalho” paciente da aranha tecendo a teia.
Mas esses atos não têm história, não se renovam e são os mesmos
em todos os tempos, salvo as modificações determinadas
pela evolução das espécies e as decorrentes das mutações genéticas.
No entanto, mesmo quando há essas modificações,
elas continuam valendo para todos os indivíduos da espécie
e não permitem inovações, passando a ser transmitidas hereditariamente.
O hábito de fazer ninhos é tão fixo que certas aves chamadas tentilhões,
que, após cinco gerações criados por canários,
continuavam a construir ninhos típicos da espécie.
O psicólogo Paul Guillaume,
explica que um ato inato não precisa surgir desde o início da vida,
pois muitas vezes aparece apenas mais tarde,
no decorrer do desenvolvimento.
Assim, por exemplo, andorinhas novas, impedidas de voar até certa idade,
de repente começam a voar sem muita dificuldade.
Gatinhos novos não esboçam nenhuma reação diante de ratos,
mas, com o passar do tempo desenvolvem o instinto natural da espécie:
perseguição, captura, matança.
É costume dizer que os instintos são “cegos”, ou seja,
são uma atividade que ignora a finalidade da própria ação.
Assim, por exemplo, uma vespa “fabrica” uma célula onde deposita o ovo,
em seguida, caça aranhas e coloca-as junto ao ovo,
para que a larva, ao~~ nascer, encontre alimento suficiente.
Ora, se retirarmos as aranhas e o ovo,
mesmo assim o inseto continuará todas as operações,
terminando pelo fechamento adequado da célula vazia.
Dizemos que esse comportamento é “cego” porque não leva em conta o sentido principal,
que deveria determinar a “fabricação” da célula,
ou seja, a preservação do ovo e da futura larva.
O ato humano voluntário, ao contrário, é consciente da finalidade,
isto é, o ato existe antes como pensamento,
como uma possibilidade, e a execução é o resultado da escolha
dos meios necessários para atingir os fins propostos.
E caso haja interferências externas no processo,
os planos também são modificados.
No entanto, nos níveis mais altos da escala zoológica,
as ações animais deixam de ser exclusivamente resultado de reflexos e instintos e
apresentam uma plasticidade maior,
características dos atos inteligentes.
Ao contrário da rigidez dos instintos, a resposta inteligente a um problema,
ou a uma situação nova para a qual não há uma programação biológica,
é improvisada, pessoal e criativa.
Experiências interessantes foram realizadas
pelo psicólogo gestaltista Kohler nas ilhas Canárias,
onde instalou uma colônia de chimpanzés.
Um dos experimentos consistia em colocar o animal faminto numa jaula
onde se pendurava uma banana,
e o problema era resolvido
quando o chimpanzé conseguia puxar um caixote
e o colocava sob a fruta para poder alcançá-la.
Isto não se dava de imediato,
mas no momento em que o animal tinha um discernimento,
uma “iluminação súbita”, isto é, quando, segundo Kohler,
o macaco conseguia ter uma visão do campo global
e estabelecia a relação entre o caixote e a fruta.
Esses dois elementos, que se achavam separados e independentes,
passam a fazer parte de uma totalidade:
Este tipo de resposta é inteligente, e não instintiva, e varia de animal para animal.
Tanto é que Sultão, um dos chimpanzés mais inteligentes,
foi o único que conseguiu encaixar um bambu em outro para alcançar a fruta.
Trata-se, porém, de um tipo de inteligência concreta,
ou seja, depende da experiência vivida “aqui e agora”;
mesmo quando o animal repete mais rapidamente o teste já aprendido,
o seu ato não domina o tempo, pois, a cada momento em que é executado,
esgota-se no seu movimento.
Em outras palavras, o animal não inventa o instrumento,
não o aperfeiçoa, nem o conserva para uso posterior.
Portanto, o gesto útil não tem seqüência
e não adquire o significado de uma experiência propriamente dita.

A atividade humana: o trabalho

Como vimos, não podemos dizer que o animal produz a sua própria existência,
mas apenas a conserva agindo instintivamente ou,
quando se trata de animais de maior complexidade orgânica,
“resolvendo” problemas de maneira inteligente.
Esses atos visam a sua defesa, a procura de alimentos e de abrigo,
e não devemos pensar que o castor, ao construir o dique,
e o João-de-Barro, a sua casinha, estejam “trabalhando”.
Se o trabalho é a ação transformadora da realidade,
na verdade o animal não trabalha mesmo
quando cria resultados materiais com sua atividade,
pois sua ação não é deliberada, nem intencional.
O trabalho humano é a ação dirigida por finalidades conscientes,
a resposta aos desafios da natureza, na luta pela sobrevivência.
Ao reproduzir técnicas que outros homens já usaram e ao inventar outras novas,
a ação humana se torna fonte de idéias e ao mesmo tempo
uma experiência propriamente dita.
A noção de experiência humana não se separa do caráter abstrato da inteligência do homem,
pela qual ele pode superar a vivência do “aqui e agora”, passando a existir no tempo:
torna-se capaz de lembrar a ação feita no passado e de projetar a ação futura.
Isto é possível pelo fato de poder representar o mundo por meio da linguagem simbólica,
como veremos mais adiante.
A partir dessas colocações, concluímos que as diferenças entre o homem e o animal
não são apenas de grau, pois,
enquanto o animal permanece envolvido na natureza,
o homem é capaz de transformá-la, tornando possível a existência da cultura.

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