___Querida, comprei os ingressos para o show desta noite.
___ Mas porque você comprou? Eu não vou.
___ Como assim? Ainda hoje de manhã nos combinamos ir,
você estava super animada, o que aconteceu?
___ Não aconteceu nada, eu apenas mudei de idéia,
eu sou assim mesmo, não sabia?
Nós estávamos namorando há apenas um mês e ele,
ainda, não me conhecia o bastante para saber que eu mudo de idéia.
Não são exatamente mudanças de humor,
mas, quando eu quero algo ou alguém,
exagero em meus desejos,
vivencio com muita intensidade a situação
antes mesmo que ela ocorra de fato, vou fundo demais,
depois fico com ressaca.
Esse show, por exemplo, eu já tinha ido e voltado, em pensamento, e,
o que é pior, não havia gostado.
O salão estava muito cheio, pessoas se esbarrando,
alguns fãs mais exaltados pulando, pisando em meus pés,
o jogo de luz deixando a gente tonta,
o bar lotado, com filas quilométricas para pegar uma cerveja,
o banheiro sem condição, nojento,
cheio de urina no chão, sem papel higiênico,
a descarga não funcionava, a torneira do lavatório saia um pingo de água,
apenas um pequeno espelho na parede, onde todo mundo queria retocar a maquiagem.
E o palco, como ver o artista no palco?
Parece que todas as pessoas são mais altas que eu.
E meus pés, como doem meus pés nesses tamancos de salto alto.
___ Mas, querida você estava planejando ir nesse show há tanto tempo,
como pode ter mudado de idéia?
___ Por favor amor, não vamos falar sobre isso,
você não vai entender, eu quero apenas que aceite o fato.
Lamento que você perca seus ingressos, ou melhor, seu dinheiro,
mas eu não vou mais ao show.
É sempre assim, quando eu mudo de idéia. As pessoas não querem aceitar.
Afinal o que pode haver de tão estranho nisso?
Outro dia, apenas porque eu já tinha comprado a passagem,
para ir no próximo feriado,
aproveitando o calor, pegar uma praia e,
agora não quero mais viajar,
não quer dizer que sou uma pessoa imprevisível.
Só mudei de idéia.
Eu já sei que nas cidades praianas o tempo é muito instável,
eu deveria levar roupas para sol e para chuva,
a casa alugada ficava bem distante da praia,
seria aquela loucura de levantar cedo,
arrumar tudo que deveria levar para praia,
carregar aquelas mochilas pesadas e,
no final esquecer o protetor solar,
brigar por um espaço na praia lotada para,
finalmente,
conseguir armar a barraca,
estender a toalha, que fica toda cheia de areia,
comprar aquela cerveja quente do primeiro vendedor ambulante que passa,
porque está morrendo de sede,
ir à primeira barraca enfrentar uma fila enorme,
para pedir uma porção de camarões que vem meio crua e,
com uma fome terrível, comer avidamente,
depois ficar com a sensação de ter comido baratas,
pensar que a vida é bela,
você é uma pessoa privilegiada por estar fora de sua cidade,
desfrutando um final de semana prolongado na praia e,
quando voltar vai comentar isso com seus amigos,
inventando um monte de mentiras,
dizendo que a viagem foi maravilhosa,
morrendo de frustração por dentro,
mas, matando os outros de inveja.
Por isso eu mudei de idéia.
Quando eu me apaixono por alguém,
é claro não fico apenas imaginando.
Começa o namoro. No início tudo é lindo.
A gente está apaixonada, morrendo de tesão,
pensa que aquele amor é para sempre.
Agradece a Deus por ter colocado em seu caminho essa pessoa especial,
diferente de todas as outras,
a gente até acredita naquela máxima da alma gêmea,
só pode ser sua outra metade.
Mas, quando a poeira de seus olhos vai se dissipando,
os seus sentidos voltando a ter sentido,
a gente muda de idéia.
A gente começa a enxergar, cheirar e,
principalmente, ouvir melhor.
São detalhes que antes não mereciam nenhuma reprovação,
pelo contrário, eram motivos de atração, agora nos parece horrorosos.
Tudo que era charmoso, agora é repulsivo.
O jeito de andar que antes me parecia tão másculo,
agora parece afeminado, acho até que ele rebola,
será que estava fazendo charme para algum homem e eu nem percebia?
E o cheiro?
Acho que ele não gosta muito de tomar banho,
o odor de suor e chulé é insuportável.
E os dentes?
Tenho certeza de que ele não os escova regularmente.
Fio dental? Deve pensar que é sinônimo de calcinha minúscula.
Roncos?
É como se estivesse abrindo uma cratera no cérebro da gente,
um complô, um plano para te enlouquecer.
Aquele som medonho não pode ser obra única e exclusiva de um ser humano.
É inacreditável que uma criatura possa extrair de dentro de si um ruído tão esmagador.
Não consigo meu amor, o tesão acabou.
Sou muito imperfeita pra aceitar essa situação.
Mudei de idéia.
sábado, 27 de março de 2010
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