sábado, 22 de maio de 2010

LUA NOVA DEMAIS

Elisa Lucinda

Dorme tensa a pequena sozinha como que suspensa no céu
Vira mulher sem saber sem brinco, sem pulseira, sem anel sem espelho, sem conselho, laço de cabelo, bambolê
Sem mãe perto, sem pai certo sem cama certa, sem coberta, vira mulher com medo, vira mulher sempre cedo.
Menina de enredo triste, dedo em riste, contra o que não sabe quanto ao que ninguém lhe disse.
A malandragem, a molequice se misturam aos peitinhos novos furando a roupa de garoto que lhe dão dentro da qual mestruará sempre com a mesma calcinha, sem absorvente, sem escova de dente, sem pano quente, sem O B.Tudo é nojo, medo, misturação de “cadês.”
E a cólica, a dor de cabeça, é sempre a mesma merda, a mesma dor, de não ter colo, parque pracinha, penteadeira, pátria.
Ela lua pequenininha não tem batom, planeta, caneta, diário, hemisfério,
Sem entender seu mistério, ela luta até dormir mas é menina ainda; chupa o dedo
E tem medo de ser estuprada pelos bêbados mendigos do Aterrotem medo de ser machucada, medo.
Depois mestrua e muda de medo o de ser engravidada, emprenhada, na noite do mesmo Aterro.
Tem medo do pai desse filho ser preso, tem medo, medo
Ela que nunca pode ser ela direito, ela que nem ensaiou o jeito com a boneca vai ter que ser mãe depressa na calçada ter filho sem pensar, ter filho por azar ser mãe e vítima
Ter filho pra doer, pra bater, pra abandonar.
Se dorme, dorme nada, é o corpo que se larga, que se rende ao cansaço da fome, da miséria, da mágoa deslavada dorme de boca fechada, olhos abertos, vagina trancada.
Ser ela assim na rua é estar sempre por ser atropelada pelo pau sem dono dos outros meninos-homens sofridos, do louco varrido, pela polícia mascarada.
Fosse ela cuidada, tivesse abrigo onde dormir, caminho onde ir, roupa lavada, escola, manicure, máquina de costura, bordado, pintura, teatro, abraço, casaco de lã podia borralheira acordar um dia cidadã.
Sonha quem cante pra ela: “Se essa Lua, Se essa Lua fosse minha...”Sonha em ser amada, ter Natal, filhos felizes, marido, vestido, pagode sábado no quintal.
Sonha e acorda mal porque menina na rua, é muito nova é lua pequena demais é ser só cratera, só buracos, sem pele, desprotegida, destratada pela vida crua
É estar sozinha, cheia de perguntas sem resposta sempre exposta, pobre lua
É ser menina-mulher com frio mas sempre nua.

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