Lygia Bojunga Nunes
Pra mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena
os livros me deram casa e comida.
Foi assim: eu brincava de construtora, livro era tijolo;
em pé, fazia parede; deitado, fazia degrau de escada; inclinado,
encostava num outro e fazia telhado. E quando a casinha
ficava pronta eu me espremia lá dentro pra brincar de morar
em livro.
De casa em casa eu fui descobrindo o mundo (de tanto
olhar pras paredes). Primeiro, olhando desenhos; depois
decifrando palavras.
Fui crescendo; e derrubei telhados com a cabeça. Mas
fui pegando intimidade com as palavras. E quanto mais íntimas
a gente ficava, menos eu ia me lembrando de consertar o
telhado ou de construir novas casas. Só por causa de uma razão:
o livro agora alimentava a minha imaginação.
Todo dia a minha imaginação comia, comia e comia;
e de barriga assim toda cheia, me levava pra morar no mundo
inteiro: iglu, cabana, palácio, arranha-céu, era só escolher
e pronto, o livro me dava.
Foi assim que, devagarinho, me habituei com essa troca
tão gostosa que – no meu jeito de ver as coisas – é a troca
da própria vida; quanto mais eu buscava no livro, mais ele me
dava.
Mas como a gente tem mania de sempre querer mais,
eu cismei um dia de alargar a troca: comecei a fabricar tijolo
pra – em algum lugar – uma criança juntar com outros, e levantar
a casa onde ela vai morar.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
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